Mente e coluna: uma via com dois sentidos

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O corpo e a mente estão entrelaçados, essa relação serve de meio para atingir o conhecimento do nosso mundo. Em medicina, todos os dias confirmamos que corpo e mente não estão separados. Uma dor não se limita a um ponto no corpo. A dor altera a forma como dormimos ou trabalhamos, como nos movemos e relacionamos com os outros, prejudica a concentração e o planear do dia seguinte. Na patologia da coluna, esta relação é particularmente evidente: o estado físico e o bem-estar psicológico influenciam-se mutuamente.

Ansiedade, depressão e outras formas de mal-estar psicológico pré-existentes podem modificar a experiência da dor. Podem exacerbar a atenção sobre o problema, reduzir a tolerância ao desconforto, perturbar o sono ou aumentar a tensão muscular. Por sua vez, a bola de neve vai aumentando, após semanas ou meses com dor perde-se autonomia, capacidade de trabalhar, abandonam-se atividades. Com isto o equilíbrio emocional vai piorando. Corpo e mente vão-se condicionando ao longo do tempo.

A pessoa pode ficar refém, dentro um ciclo de medo. A dor leva-nos a evitar determinado movimento, progressivamente, a atividade física vai-se reduzindo e a confiança no corpo também. O receio de que mexer faça pior instala-se, mesmo quando o movimento é seguro. Perde-se condição física e tarefas normais tornam-se cada vez mais difíceis.

Em episódios de lombalgia ou cervicalgia, vários estudos mostram que pessoas com problemas de saúde mental têm em média mais dor e incapacidade. Neste grupo, os resultados dos tratamentos são piores quer com medicação, fisioterapia ou cirurgia. A dimensão do problema é enorme: a lombalgia continua a ser a principal causa de incapacidade em todo o mundo, quer a lombalgia quer as perturbações de ansiedade ou depressão afetam centenas de milhões de pessoas.

Há ainda outro aspeto importante. Dores na coluna e problemas de saúde mental estão associados a hábitos de vida pouco saudáveis, coexistindo com sedentarismo, sono insuficiente, tabagismo, alimentação desequilibrada ou aumento de peso. Aqui há um alvo para possíveis mudanças.

As medidas são fundamentais e simples de enunciar: atividade física regular, dormir em quantidade suficiente e com qualidade, alimentação equilibrada, controlo do peso, evitar tabaco e excesso de álcool, cultivar relações sociais e evitar o isolamento. Após a exclusão clínica de causas graves, a melhor forma de tratar as dores de coluna é esta. Recuperar função e confiança.

É importante reconhecer que nem sempre conseguimos fazê-lo sozinhos. Por vezes é necessário procurar ajuda médica, psicológica ou de outros profissionais de saúde. Isto não significa que a dor seja “imaginária”, significa reconhecer que somos mais do que uma ressonância isolada.

Mente e corpo fazem parte da mesma realidade humana, embora se expressem de formas diferentes. Neste dia Internacional da Saúde Mental é importante lembrar que a saúde não se atinge plenamente quando tratamos o corpo e ignoramos a mente.

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