A tua coluna não é culpa tua

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Provavelmente cresceste a ouvir que tinhas de te sentar direito, levantar pesos de determinada maneira, usar a mochila nos dois ombros e proteger a coluna quase como se fosse feita de vidro. E talvez um dia, se te doerem as costas, também acabes por fazer a mesma pergunta que oiço todos os dias no consultório: o que fiz de errado?

Quando alguém chega aos cinquenta anos com dor nas costas, é frequente culpar os anos de trabalho pesado, o desporto levado longe demais ou aquela queda aos vinte. É uma história coerente — e é exatamente a mesma história que hoje te dizem para evitares. Escrevo-te isto porque, quando essas ideias foram finalmente testadas de forma rigorosa, revelaram-se muito menos verdadeiras do que imaginávamos.

O problema era simples: comparando duas pessoas, nunca se sabe se a coluna de uma está pior pela vida que levou ou por aquilo com que nasceu. Nos anos noventa, investigadores finlandeses resolveram isso estudando pares de gémeos idênticos com vidas muito diferentes. Um passou décadas em trabalho pesado; o outro teve uma atividade predominantemente sedentária. As diferenças eram surpreendentemente pequenas: o irmão que passou a vida a carregar peso tinha praticamente a coluna do irmão que passou a vida sentado. A genética explicava a maior parte da variação observada; a carga mecânica acumulada, apenas uma fração modesta. O disco intervertebral não é um pneu que se desgasta à medida que acumula quilómetros.

O maior erro foi talvez essa metáfora. Durante décadas imaginámos a coluna como uma máquina que se desgastava com o uso. Hoje sabemos que é muito mais do que isso. É um tecido vivo. O osso remodela-se, o músculo adapta-se às cargas, o sistema nervoso aprende e os discos envelhecem segundo mecanismos biológicos complexos, influenciados pela genética e pelo ambiente. E aquele não foi um estudo isolado: nas décadas seguintes, outros trabalhos confirmaram o mesmo padrão.

Há, no entanto, um detalhe importante. Aqueles estudos mediram alterações nas ressonâncias magnéticas, não a dor. E as duas coisas estão muito menos ligadas do que parece. Há pessoas com discos muito degenerados que nunca tiveram dor, e outras com dores incapacitantes apesar de alterações discretas na imagem. Herdaste uma predisposição para a forma como os teus discos vão envelhecer. Não herdaste uma sentença de dor.

O problema maior nem é a informação errada. É cresceres a acreditar que a tua coluna é frágil. Quem pensa que transporta um objeto quebrável evita movimentos, protege-se em excesso e começa a ter medo da dor. Hoje sabemos que esse medo pode contribuir para que a dor persista. A verdade é bastante mais tranquilizadora: os teus ossos e os teus músculos são extraordinariamente adaptáveis, e a tua coluna é bem mais robusta do que te fizeram crer. Não se estraga por dormires torto ou por levantares um peso de forma imperfeita.

Isto não significa que nada dependa de ti. Significa que a lista do que realmente conta é diferente daquela que te deram. Conta não fumares. Conta manteres-te em forma — não fazendo exercícios para as costas, mas cuidando da tua condição física em geral. Contam o sono e a saúde mental, muito mais do que imaginas. E conta, sobretudo, o que fizeres no dia em que a dor aparecer: manteres a tua vida e continuares ativo, ou parares tudo, correres atrás de exames e passares a organizar a tua vida em torno de uma imagem. Nada disto é postura. São decisões sobre a forma de viver.

Daqui a trinta anos, quando tiveres cinquenta — e é provável que nessa altura já tenhas tido pelo menos um episódio de dor nas costas — espero que não olhes para trás convencido de que estragaste a tua coluna por te sentares mal ou por levares a mochila num só ombro.

Se esse dia chegar, lembra-te apenas desta ideia: a tua coluna não é um julgamento moral do teu comportamento. Tens influência sobre ela, claro. Mas essa influência raramente está onde durante tantos anos te disseram que estava.

Quase tudo o que te ensinaram a controlar conta pouco. Quase tudo o que conta nunca te foi ensinado.

Artigo de Opinião de Ricardo Rodrigues Pinto, Ortopedista e cirurgião de coluna, professor universitário, membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV)

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