“Senti necessidade de combater a ideia de que os resultados das cirurgias da coluna eram pouco satisfatórios”

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Dr. Álvaro Lima
Dr. Álvaro Lima

Desde que começou a sentir interesse pelo tratamento da patologia da coluna, em 2010, que o neurocirurgião Álvaro Lima decidiu associar-se à SPPCV. Admirava o trabalho dos membros desta sociedade científica, que contribuiu para a união das Neurocirurgia e da Ortopedia; e sentia necessidade de alterar as mentalidades da época, que acreditavam que os resultados destas intervenções cirúrgicas eram pouco satisfatórios.

Álvaro Lima recorda o que o levou a assumir a presidência da SPPCV: “sentimento de dever e de dar continuidade ao trabalho iniciado” pelos seus colegas. Para si, foi “um orgulho” poder consolidar a sociedade que congregava a maioria dos cirurgiões da coluna vertebral, “sem cisões ou conflitos”.

É sócio da SPPCV desde março de 2010. O que o levou a associar-se a esta sociedade científica?

Álvaro Lima (AL) – Foi nessa altura que comecei a ter interesse em dedicar-me ao tratamento da patologia da coluna. A SPPCV estava a ganhar espaço e relevância, juntando várias especialidades que intervinham no tratamento da patologia da coluna. Porém, o mais atrativo foi o genuíno interesse em engrandecer este projeto por parte de um grupo de cirurgiões da coluna, com origem nas especialidades de Neurocirurgia e Ortopedia, que viriam a ser os seus verdadeiros propulsores. Ao contrário de outros países, em Portugal estávamos a conseguir juntar elementos das duas especialidades sem rivalidades ridículas.

Nessa altura a cirurgia da coluna, num Serviço de Neurocirurgia, era considerada uma atividade de segundo plano. Quando fiz o concurso de consultor, o Júri perguntou-me porque me tinha dedicado à cirurgia da coluna, se os resultados das intervenções eram tão pouco satisfatórios para os doentes. Esse era o tipo de mentalidade que senti necessidade de combater, quando percebi que a seleção adequada do doente e da técnica cirúrgica garantia resultados muito melhores.

Obviamente, a habilitação para uma decisão terapêutica adequada só se adquire com experiência, pelo que eu hoje advogo que um cirurgião de coluna deverá realizar esta atividade em dedicação exclusiva.

Considera que o tratamento da patologia da coluna melhorou com a criação desta sociedade científica?

AL – Sem dúvida, a criação e o sucesso da SPPCV permitiu consolidar a ideia da importância da especialização no tratamento da patologia da coluna, devido à complexidade clínica e técnica. A formação da Sociedade elevou a fasquia e obrigou os seus sócios a desenvolver as suas competências técnicas de forma a acompanhar os resultados obtidos nos melhores centros internacionais.

A Sociedade permitiu dar espaço e valorizar os médicos com interesse no tratamento desta patologia. Por outro lado, contribuiu para uma maior uniformização do tratamento e orientação da formação dos especialistas. Desta forma, deixou de ser necessário juntar um neurocirurgião com um ortopedista para realizar alguns tipos de intervenção.

Há ainda muito por fazer?

AL – Sim, a criação de unidades/serviços de tratamento de patologia da coluna que juntem especialistas com formação Ortopédica e de Neurocirurgia, que funcionem como centros de referência, de forma a aumentar a experiência cirúrgica e obter resultados de excelência. Esses centros serão o embrião da futura especialidade em Cirurgia da Coluna, ainda longínqua, mas inevitável.

Melhoria da qualidade da comunicação. É fundamental a uniformização da linguagem utilizada pelos vários médicos especialistas de Imagiologia, Cirurgia, Fisiatria, consulta de Dor, mas também por enfermeiros, fisioterapeutas e osteopatas, na sua comunicação com os doentes e com a população em geral.

Foi presidente desta sociedade científica no biénio de 2015/2016. O que o levou a abraçar este desafio?

AL – A principal razão foi o sentimento de dever, de dar continuidade a um projeto iniciado por um grupo de colegas que eu respeitava muito pela coragem, pela competência e pela honestidade. Era um orgulho poder consolidar uma Sociedade que congregava a grande maioria dos cirurgiões que tratam a patologia da coluna em Portugal, sem cisões ou conflitos. Esta conquista foi fundamental para ganhar a confiança de outras classes de médicos, da Tutela e da sociedade em geral.

Outro dos objetivos principais da minha presidência foi contribuir para a organização de um currículo formativo a nível nacional na área da cirurgia da coluna. Na altura, procurei também estreitar a ligação com as outras especialidades médicas envolvidas no tratamento da patologia da coluna e aumentar a nossa exposição junto da comunicação social, das Escolas, das Universidades Sénior, das empresas e da Sociedade em Geral. A intenção principal era contribuir para a prevenção da patologia da coluna e desfazer alguns mitos associados à cirurgia da coluna.

Atingiu os objetivos a que se propôs?

AL – Os objetivos foram atingidos com as limitações inerentes à dimensão da Sociedade e à carolice dos envolvidos e muito ficou por fazer.

Durante o biénio 2015-2016 foi realizado o VI Congresso Nacional, em Gaia, no ano de 2016, e o III Simpósio da SPPCV, em Peniche; e em 2015, foram apresentados os resultados da realização de um inquérito nacional aos vários Hospitais do país, sobre a sua atividade cirúrgica, de forma a definir panorama da cirurgia da coluna em Portugal.

Foi mantida a relação com algumas congéneres estrangeiras, das quais destaco, a Sociedade Brasileira e Espanhola de coluna, e a SILACO. O aprofundamento da relação com a Sociedade Brasileira de Coluna culminou com a participação de uma extensa comitiva de Portugal, no Congresso do Rio de Janeiro, em 2017.

No âmbito das relações Internacionais sublinho a adesão da SPPCV à Eurospine, como membro Institucional, em fevereiro de 2015, e a participação no EUSSAB (European Spine Societies Advisory Board), órgão consultivo da Eurospine, onde tinha assento um representante de cada sociedade nacional.

No âmbito da Formação foi feita uma proposta à Eurospine, em conjunto com a Sociedade espanhola de Coluna (GEER), para realização dos Cursos do Diploma Europeu de Coluna na península Ibérica, que se iniciaram com muito sucesso em 2017.

Qual o estado da arte do tratamento da patologia da coluna vertebral?

AL – À semelhança de outras atividades cirúrgicas, nas últimas duas décadas houve avanços técnicos notáveis. Os pilares do tratamento da patologia da coluna vertebral são: centros multidisciplinares especializados, cirurgiões em dedicação exclusiva (com um número de casos anuais suficientemente elevado e diversificado) e, técnicas percutâneas e cirurgias minimamente invasivas.

A Medicina baseada no Valor é uma realidade que também começa a estar presente nas tomadas de decisões terapêuticas da patologia da coluna. A valorização da informação reportada pelo próprio doente é fundamental para tornar o doente e a sua qualidade de vida, o centro do tratamento.

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